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Telas e desenvolvimento

A conta do atalho: o tablet que acalma e a IA que responde

Dr. Pedro Mario PanPsiquiatra e pesquisador
Publicado em 12 de agosto de 2026 · Atualizado em 13 de agosto de 2026 · 2 min de leitura
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Mãe e filho adolescente conversam sentados no sofá à noite; o adolescente segura um celular com a tela acesa.

Chegaram na mesma semana, das duas instituições americanas que acompanho mais de perto, e tratam da mesma coisa por pontas opostas. Em 29 de julho a Children and Screens publicou um episódio do podcast Screen Deep com Peter Reschke, professor de desenvolvimento humano na Brigham Young University, sobre o que acontece quando o celular vira a ferramenta para acalmar uma criança pequena. Em 19 de agosto a mesma instituição abre uma série de webinars chamada "Character Matters" com outra pergunta: como criar pensadores independentes numa época em que a inteligência artificial responde à lição de casa em segundos? A mesa reúne Tenelle Porter, de Rowan, Naomi Baron, da American University, Victor Lee, de Stanford, e Punya Mishra, da Arizona State. Um assunto é a criança de dois anos que chora. O outro é o adolescente que precisa escrever uma redação. O que liga os dois é o atalho: nos dois casos a tela assume um esforço que era da criança.

Reschke estuda o que chama de regulação emocional mediada por mídia. O achado dele é que usar o aparelho com frequência para acalmar bebês e pré-escolares prediz uso problemático de mídia mais tarde na infância. Assistir junto com a criança ajuda. Entregar o aparelho e sair de perto atrapalha. Ele descreve também como o sistema nervoso do bebê reage quando o cuidador está com a atenção no celular. Do outro lado da mesma questão, o Child Mind Institute publicou em 30 de julho uma conversa de Dave Anderson com Lisa Damour sobre preparar a criança para um futuro que ninguém consegue prever. A lista dela é nossa conhecida: proteger o sono como coisa inegociável, comer junto com alguma regularidade e sem telas na mesa, incentivar hobbies que não sirvam para o currículo, deixar a criança lidar sozinha com contratempos pequenos antes de resolver por ela. Cada item devolve à criança um esforço que alguém poderia ter feito no lugar dela.

O tema do Reschke é um em que trabalhei diretamente. Num estudo publicado na JAMA Pediatrics em 2024, com Caroline Fitzpatrick e colegas, acompanhamos 315 crianças aos 3 anos e meio, aos 4 e meio e aos 5 e meio, e encontramos um ciclo que se alimenta: mais uso de tablet aos 3 anos e meio previu mais explosões de raiva e frustração um ano depois, e mais raiva aos 4 anos e meio previu mais tablet no ano seguinte.

Assim, a pergunta sobre telas deve ir além de quantas horas. Horas explicam, e a família que responde a essa pergunta sai da conversa com um plano. A pergunta que também deve ser incluída é o que a tela está ocupando, no lugar de quê. O sono virou tela? O momento de aguentar a frustração sozinho virou vídeo? É isso que um check-up de telas pode também tentar medir, avaliar, porque aponta onde intervir.

Foto de Dr. Pedro Mario Pan
Dr. Pedro Mario Pan

Psiquiatra e pesquisador

Psiquiatra, mestre, doutor e pós-doutor pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP). Foi o primeiro PhD formado pelo Programa Tripartite em Psiquiatria do Desenvolvimento (UNIFESP/USP/UFRGS) e atuou como pesquisador no National Institute of Mental Health, nos EUA. Pesquisa depressão, neurodesenvolvimento e identificação precoce de riscos para transtornos mentais.

Referências

  1. Early-Childhood Tablet Use and Outbursts of Anger (JAMA Pediatrics) (2024)
  2. Digital pacifiers: Developmental trajectories of media emotion regulation in early childhood (Computers in Human Behavior) (2026)
  3. Screen Deep Podcast — Children and Screens: Institute of Digital Media and Child Development
  4. Raising Resilient Kids Who Are Prepared for the Future — Child Mind Institute (2026)

Este conteúdo é apenas informativo e tem caráter educativo. Ele não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por um profissional de saúde. Se você tem preocupações com a sua saúde mental ou a de alguém próximo, procure um profissional qualificado.